sábado, 22 de junho de 2013

Peter

Você está mesmo aí? Do outro lado da linha, do outro lado da ponte, me pedindo pra pular?
E qual deveria ser o meu lugar? Quando todo o teu encanto me toma por todos os lados, e nada sobra, e nada se volta contra. Eu poderia faze-lo mesmo sabendo que iria cair, que tudo ali iria ser só um pensamento, a ligação de duas mentes, e dois corações. Eu poderia faze-lo.
Mas eu sabia que aquele momento sentimentalista de poetiza com um estranho, estaria na minha consciência totalmente errada. Eu estaria fazendo o que eu já fiz, eu já caí por você lá da ponte. Você não consegue enxergar, porque você ainda vê o meu lugar. Eu poderia faze-lo de novo, porque a primeira vez aconteceu só de corpo, e a alma? Ela ainda está contigo?
Eu concordo com o Jeneci quando ele se pergunta “quantas são as dores e alegrias de uma vida?” Eu faço a mesma pergunta à mim mesmo. Se a dor é algo triste, porque eu pareço tão alegre? Eu sou a única que vê um lado bonito disso?
Eu escrevo pra ti porque eu não vejo motivos para não escrever, eu te admiro demais, talvez você nem saiba disso, mas tudo em você é absurdamente bonito e estranho. É mais estranho ainda quando eu me vejo perto de ti, tentando arrancar algo. É invisível, eu sei disso.
Você me inspira o tempo todo, sinto vontade de escrever quando há chuva, e quando há sol, pois você me dá motivos para escrever.

Quem é aquele estranho vindo logo ali? E porque ele parece ser tão normal? Ele é o mistério, ele é a causa, a conduta, as danças de chuva nas avenidas. Eu o vejo navegando, o vejo nas esquinas, em qualquer lugar. Eu o procuro o tempo todo, onde está aquele rosto bonito? É de se admirar. É de parar o tempo, é de explicar a razão. Mas pra onde foi? No final da noite, ele se vai...e eu olho pra trás com motivos de precisar voltar. Não querer, mas precisar de alguma forma ver aquela expressão bonita de “a gente se vê”. E só aquilo para a poetiza já é o indescritível.
Quando você observa algo bonito, e você tem explicação pra aquilo, ela não poderia ser ao todo bonito. Porque não há razão, não há descrição de algo verdadeiramente bonito. Eu te vejo nas músicas atonais, estranhas, inexecutáveis, eu te vejo naquelas atmosferas que se formam a partir dali.
Te vejo dentro dos filmes, das músicas calmas, aquelas que conseguem atravessar o corpo, ensopa a alma. Eu te vejo, mas mesmo assim...eu não te alcanço. Você de qualquer forma está longe, eu escrevo de ti, tento parecer imprevisível mas se eu não te toco, o que eu poderia sentir? Ah, disso você também não sabe. Eu te sinto. Na minha mente, existem caixas que seguram todos os momentos, e assim como o teu abraço, e tuas expressões, estas também ficam memorizadas. Assim, quando eu te aproximo por pensamento, eu consigo sentir o teu abraço, as tuas perguntas por olhares, e ainda ouço a tua voz, como música.
O estranho era enfim, aquilo que nem a poetiza, nem qualquer outra alma poderia alcança-lo, ele agora voa, não está mais no seu lugar. Talvez um dia ele já esteve, mas eu não estava lá, essa é a razão, eu não estava lá.
O que eu poderia dizer que é totalmente significante e especial pra mim, é quando ele esquece de alguma coisa, ou quando eu chego a sonhar com ele, e lá estava, as mesmas expressões, o mesmo sorriso. É, eu já pulei. Você só não me viu, mas eu o faria de novo, tenha certeza que sim.
Eu acordei lá embaixo, olhei pra cima da ponte, vi você lá no alto, inspirado em alguma coisa que eu não podia sentir. Você já não estava mais em mim, a bolha de plástico já tinha estourado, eu havia realmente caído. Mas o ar era o mesmo, eu podia senti-lo, de alguma forma eu ouvia-o arfar. Era aquele suspiro de dúvida, de espera, de tristeza.
Tristeza? Será que você consegue enxergar a beleza dentro de algo tão triste? Eu podia vê-lo, não tocá-lo mas sempre o sentia de alguma forma. Em alguma música do Jeff Buckley, em algum filme estranho, ou um romance estranho, em algum verso bonito, ou triste, em algum chocolate, ou em textos absurdamente valorizados, músicas atonais, pensamentos triunfantes, eu podia senti-lo, dessas e muito mais formas. Ele só não sabia como.
De qualquer forma, dói, eu sinto a dor, que talvez ele não sinta, a dor que não cabe mais dentro de mim, todos os dias tento me esvaziar, mas acordo cheia, cheia de vontade de sair correndo, e te achar na esquina, de alguma forma te encontrar não só nas coisas que tu me deixastes. Mas nele. Tentando achar o que eu procurava a noite inteira. Eu não podia alcançá-lo.
E essa é a verdade, ela se vai com o tempo, ela escorre, ela desaparece, ela seca. Daqui algum tempo, não seremos tão lembrados, se todos os dias eu acordo cada vez mais certa de que você deveria mudar ideia, daqui algum tempo você não vai se lembrar do “especial” que costumava ver. Eu sei que talvez não concorde com isso moço estranho, mas de alguma forma eu sei que vai perder a razão. Quem escreve pelo coração?
E mais uma vez, como sempre vou pedir, e sempre vou dizer que não é pela minha vontade, você vai além mais do que isso. Você é bem mais do que isso. Me perdoa, eu te peço que não se lembre disso amanhã, ache o erro. Procure-o em todo lugar, eu faço sempre isso, me pergunto mil vezes porque eu poetiza deveria estar fazendo algo contra a isso? Mas só chego em resultados bonitos, como se valesse a pena tentar. Acontece que a poetiza cansou, cansou de procurar explicações e resultados que fizessem dar certo. Porque ela sabe que na verdade, não há. É o vazio, é o invisível.
Este é o nosso segredo, quando encontrar o moço estranho, diga a ele que não há amor mais bonito do que a poetiza sente. Diga a ele que não há resposta, só perguntas. Que não faz sentido, mas dentro dela é verdade. Diz que é complicado, e que você não sabe explicar, mas que ele é o mais bonito, e que brilha ao admira-lo.

Não acaba, não desaparece, não espera, não faz sentido, não suporta, não adoece, não fortalece. Só há razões para aquelas coisas visíveis, e no caso dele, simplesmente habita o vazio. Que todo o resto, a poetiza já o arrancou. Perdoe-os, por não existirem. 

4 comentários:

  1. Alguém conhecido? Parece que já li isso em algum lugar...

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  2. Veio de você, para quem? Não falei que li isso de outra pessoa, falei que já li isso em algum lugar.

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